
Ventava. Chovia. Fazia frio. O jovem havia acabado de acordar e não sabia o que havia acontecido. Ou não lembrava. Recordava apenas de um estrondo como o de um milhão de trovões. E o clarão como o de um milhão de relâmpagos. Depois disso, só silêncio e escuridão. Até agora. Até despertar. Ele olhava pelo grande buraco na parede do apartamento do 21º andar onde morava, e só o que via era o cinza. O cinza do céu. O cinza do concreto da cidade, em alguns pontos extremamente danificados. Provavelmente pelo estrondo e pelo clarão.
Após descer os lances de escada e alcançar a rua, ele olha novamente para o céu. Cinza. Com um casaco de couro que encontrou quando descia pelas escadas do prédio, tenta se proteger do frio e da chuva. Andava pelas ruas, a paisagem desolada, veículos abandonados, escombros de prédios caídos na calçada. O céu cinza. E após andar por algum tempo se deu conta de que estava sozinho. Não encontrara ninguém. Vivo ou morto. Ele via roupas no chão, carros de portas escancaradas. Mas não encontrava vestígios de seus donos. O silêncio seria mortal se não fosse pelo vento que cortava-lhe a pele e a chuva que caía. Fria e pesada. O jovem então entra em uma cafeteria. Pula por cima do balcão e calmamente procura por uma xícara. Encontra apenas uma inteira. Ele a limpa em sua camiseta, e a coloca sob a máquina de café. A máquina está coberta por poeira, mas não parece danificada. Ele descobre que ainda funciona. Enche a xícara de café, e o toma. Amargo. Mas quente. Encontra na dispensa dos fundos algo que parecia um pão. Olha. Cheira. Come. Não está ruim. Enche mais uma xícara de café quente, e senta-se numa mesa ao lado da grande janela de vidro e bebe e come e olha a rua. E o céu. Cinza. Na rua, apenas o vazio. Na cadeira ao lado da sua, um jornal. Na primeira página uma manchete sobre algum tipo de experimento que os militares estavam conduzindo. Coisa grande. Mas lhe parece muito complexo. Ao terminar o último gole do café, já morno, guarda o que restou do pão no bolso do casaco de couro, e sai. A chuva havia cessado. Ele tentava se lembrar de como era antes, mas estava difícil. Lembrava-se apenas das vozes, e das cores. Era diferente de agora. Agora era o silêncio e o cinza. De volta à rua, andava sem rumo. E por mais que caminhasse, parecia estar no mesmo lugar. Escombros. Lojas abandonadas. Algumas peças de roupas pelo chão. Veículos, muitos já cobertos por ferrugem. Após entrar em uma casa que, pelo menos aparentemente, estava intacta, sentiu que havia sido iluminado. Lembranças. Encontrara fotos na casa. De uma família, talvez. E lembrou-se da sua família. Do pai, de quem cresceu longe, por opção própria. Dos avós e da mãe, que o criaram. De alguns poucos amigos. Mas, mesmo tendo acordado a poucas horas e se deparado com a situação em que imaginava se encontrar o mundo todo, ela já tinha certeza que não os veria mais. Nem o pai ausente e os avós e a mãe e os poucos amigos. Tentava entender o que havia ocorrido. Sabia que ficando sozinho a sanidade o abandonaria. O abandonaria ainda mais rápido se tentasse entender o que ocorreu. E mais rápido ainda se descobrisse. Andou pela casa. Encontrou roupas quentes. As vestiu. Nada para comer na cozinha. Voltou para a rua pela porta da frente da casa. E ao olhar para trás, passou apenas a preocupar-se em sobreviver. Tirou o pedaço de pão que havia trazido da cafeteria do bolso do casaco de couro. Caminhava e comia. E olhava, como se esperasse uma resposta, para o céu. Cinza.