terça-feira, 24 de maio de 2011

Pesadelo


"Mas que gritaria infernal é essa? Eu sabia que esses vizinhos novos iam encher o saco. Que horas... Não acredito! São 4:13 da manhã e esses infelizes tão fazendo essa zona?!" Esse foi o primeiro pensamento do homem ao ser acordado pelos ruídos dos vizinhos. Ele se levanta e vai em direção à janela. "Estranho... Eles se mudaram faz pouco mais de 2 semanas, e pela quantidade de coisas que tão colocando nos carros, parece que tão de mudança de novo. E com certeza tão com pressa. Que se danem, e que não voltem mais."

"Já que me acordaram, vou comer alguma coisa antes de voltar pra cama." A escolha foi a pizza fria que havia pedido no final da noite. Um copo generoso de Coca-Cola gelada. "Tem coisa melhor que isso?" Ele se acomoda no sofá. Liga a TV, e logo toma um susto. Aparentemente, alguma coisa muito errada estava acontecendo na cidade. Ele passou por alguns canais, e viu que todos mostravam a mesma coisa. "Que diabos é isso? Por que tão atirando nos civis? Será que era algum tipo de protesto que... Puta que pariu! Essas pessoas tão comendo aqueles corpos! Que diabos é isso?" As imagens eram claras. Militares disparando contra homens e mulheres que pareciam possuídos, que avançavam sobre as pessoas e as devoravam como animais selvagens. E esses que eram devorados se levantavam e acompanhavam os outros no caos.

Em nenhum dos canais havia alguma explicação. Apenas instruções para que todos os habitantes da cidade evitassem o centro, as vias principais, e que, se não pudessem se dirigir à uma base militar que ficava algumas centenas de Km ao norte da cidade, se trancassem em casa, armados, e atirassem em quem tentasse invadir. Diziam que enviariam equipes para buscar esses que ficaram pra trás. "Até parece que eu vou ficar aqui sozinho, por sabe-se lá quanto tempo, esperando que esses caras lembrem de mim e venham me buscar. Tenho que sair daqui agora!". O homem corre até o quarto, e tira sua USP45 da caixa em que estava debaixo da cama. "Quinze balas no pente, uma na agulha, e mais um pente cheio. Deve ser o bastante. Chaves, chaves... Estão no contato."

Do lado de fora ele percebe que não eram apenas os vizinhos problemáticos que estavam indo embora. Todos os outros estava fazendo a mesma coisa. Enchendo carros com seus pertences e, provavelmente, partindo para a tal base militar. Mas por morar no lado sul da cidade, seria preciso passar pela região central que disseram para evitar. "Acho que essas roupas devem dar pra uns dias. Imagino que essa 'mudança' não dure muito." O rugido furioso de sua R1 é abafado pelos gritos. "Merda! Aquelas coisas chegaram aqui!" E enquanto chegavam, devoravam todos que conseguiam pegar. Devoram pele, carne, entranhas. "Isso só pode ser um pesadelo!" A moto arranca, e em poucos segundos é como se voasse, tamanha a velocidade.

"Melhor eu ir mais devagar aqui. Tô muito perto da área que disseram pra evitar. Se for com calma, saio daqui inteiro." Ele avança lentamente pelas ruas agora desertas. "E pensar que ontem de noite esse lugar era intransitável..." Apenas algumas quadras o separavam da avenida principal da cidade. De lá seria fácil chegar até a rodovia, e então, à base militar. Em uma das ruas, ele avista vários corpos. "Parece que os militares já passaram por aqui." O olhar é atento em todas as direções. Quando está prestes a alcançar um cruzamento, um caminhão, com cerca de 15 pessoas na parte de trás passar por ele em alta velocidade. "Malditos, não olham por onde andam nunca... Oh, não! Oh não, oh não!"

Quantos deviam ser? 80? 100? Um bando enorme dos comedores de gente corriam, insanos, atrás do caminhão. "Merda, me viram, me viram!" Ele dá meia volta e acelera. Pelo retrovisor, ele os vê ficando pra trás. Mas eles não desistem. "Merda, merda, merda! Pra onde eu vou? Posso tentar chegar ao outro lado pelo parque..." As lembranças de quando era garoto explodem em sua cabeça. Se lembrava das inúmeras vezes que veio até o parque com a família e os amigos. Já fazia tempo. Ele segue cautelosamente, tentando fazer o mínimo possível de barulho, prestando atenção em tudo a sua volta. "Não foi uma ideia muito brilhante vir por aqui. Esses malditos podem vir de qualquer lado." Chegar até o portão do outro lado do parque foi fácil. Quando estava a poucos metros da rua, um dos 'famintos' surge em sua frente. Instintivamente, ele atira. Entre os olhos. O corpo cai ao chão. "Acho que seus amigos não gostam de mim!" Centenas deles surgem do meio das árvores, provavelmente atraídos pelo som do disparo.

"Dezesseis a menos!" Ele recarrega a arma e acelera pelo portão. Ao longe já podia avistar a ponte que ligava a principal avenida da cidade à rodovia que ia para o norte. Sempre achou um desperdício gastarem tanto dinheiro em uma ponte tão grande e bonita, sendo que só precisavam fazer um acesso decente. Mas nunca tinha ficado tão feliz em ver a ponte a poucos Km de distância. A cerca de 600 metros da ponte, o segundo grande choque do dia. Um helicóptero militar dispara 4 mísseis contra a ponte. "Já devia imaginar uma coisa dessas. Esses desgraçados não querem que nada saia da cidade. Típico." Depois de ver a ponte ser reduzida a escombros, ele olha ao redor. Eles estão vindo de todas as direções. E só um lugar dentro da cidade parece ser forte o bastante para abrigá-lo até que isso acabe. Se é que vai acabar.

A velha catedral. Nunca pensou que depois de tantos anos, voltaria a entrar lá por vontade própria. A moto não poderia subir pela longa escadaria. "Eu volto pra te buscar, prometo!" Ele corre com todas as suas forças. Eles estão chegando mais e mais perto. O alívio é imenso quando as portas se fecham à sua frente. Com a arma em punho, ele olha ao redor. A igreja é imensa. Se lembra que vinha sempre obrigado por alguém, e que morria de tédio. Sua única distração era olhar para o alto, e ver a luz do sol entrar pela abóboda. "Tem alguém aqui? Se tiver, por favor, apareça." De trás de uma das grandes colunas, surgem uma mulher com roupas brancas, talvez médica ou enfermeira e um homem de idade, que devia ser o padre. "Fiquem calmos, sou policial." Ele guarda a arma. "Tem mais alguem aqui dentro?". O padre aponta para a porta da sacristia. Enquanto caminha até a porta, a mulher diz que eles acolheram alguns feridos que não estavam em estado grave, e os colocaram lá para descansarem até o socorro chegar. "O socorro não vai chegar. Os militares acabaram de explodir a ponte que liga a cidade à rodovia. Não querem que nada saia. E com certeza não entrarão." Ele pode ver a esperança abandonar os dois. Devia ter mentido.

Ele se senta em um banco, ao lado da mulher. Diz que provavelmente os militares voltem para verificar o estado da cidade, mas pode ser que leve alguns dias. Não será rápido. Ela chora. O padre caminha até o altar, começa um sermão, mas é interrompido. Um grito agonizante. Algum dos feridos com muita dor, provavelmente. A mulher corre até a porta. O padre chega ao mesmo tempo. "Corram!" O homem só tem tempo de gritar. Os feridos devem ter sido infectados. Todos com aquela aparencia, como se sua humanidade os tivesse abandonado. O padre cai. Tarde demais para salvá-lo. A mulher corre em sua direção enquanto ele atira. "Desgraçados, morram!" A mulher tropeça. Ele tenta chegar até a porta que leva às torres da catedral. Ele abate mais um. Outro. Mais outro. E outro. "Devia ter trazido mais munição..." Um deles consegue o derrubar. Os outros logo o cercam. Ele olha para o alto e vê a abóboda. A luz do sol enche o salão. Hoje deveria ser seu dia de folga. "O dia hoje tá realmente bonito. Mas confesso que preferia uma companhia mais bonita e agradável." "Que bela maneira de terminar o dia", ele pensa. A dor é lacerante.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eu e o fim do mundo

Muita gente pode achar estranha essa minha fascinação pelo fim do mundo. Eu mesmo não a entendo, às vezes.
Mas o que me fascina não é o fim propriamente dito, e sim como todos nós reagiríamos perante uma situação como essa. Como nos sentiríamos ao receber a notícia de que algo acabaria com a maior parte da vida no planeta. Como alguém se sentiria sendo um dos poucos (ou talvez até o único) sobrevivente de um evento como esse. Ou como seríamos novamente unidos em sociedade depois de um acontecimento catastrófico. É isso que me interessa. Como as pessoas lidariam com isso.
Já cheguei a pensar que essa minha obsessão viesse do fato de eu ter lido muitos quadrinhos quando era mais novo. Mas acho improvável, já que raras foram as histórias que li que se passavam em ambientes assim. O que mais acho provável que isso tenha se originado do medo que eu sentia de um jogo de Mega Drive chamado Terminator 2: Judgement Day. Sim, quando eu tinha meus 7, 8 anos de idade, eu me borrava de medo desse jogo. E o mais triste é que era um dos poucos que eu tinha, então não me restava escolha a não ser jogar.
Mas enfim, todos devem conhecer a história por trás do jogo: um super computador se tornou consciente, e vendo a humanidade como uma ameaça, inicia uma guerra nuclear que dizima praticamente toda a população da Terra. Mas o que me dava medo não eram os robôs que tentavam me matar no jogo, e sim o cenário. Toda aquela destruição. Imaginava como seria viver num mundo daquele jeito.
Com o passar do tempo, esse medo virou interesse. Comecei a procurar filmes que tratavam do tema apocalíptico de formas diferentes: eventos da natureza, guerras, doenças, zumbis, etc. Esse me interesse me fez conhecer a distopia. Pra quem não sabe, a distopia é exatamente o oposto da utopia. São sociedades controladas por governos totalitários, onde o povo é oprimido e submetido à vontade de poucos governantes, verdadeiros ditadores.
E todo esse interesse acabou enchendo minha cabeça com estes temas, e uma hora, tive vontade de colocar tudo pra fora. Vontade de escrever textos, histórias ou seja lá como chamar, sobre o assunto e ver como ficariam, mas não com a ideia de mostrar por aí. Até que conversando com meu 'irmão' (entre aspas porque não somos irmãos mesmo, mas a consideração é talvez até maior do que seria caso fossemos) Rodolfo, e ele disse que os textos eram legais e eu devia mostrar pra mais gente. Então é o que eu provavelmente faça.
Não sei se vai ser comum escrever aqui, mas sempre que tiver alguma ideia nova, será postada.

Enfim, é isso aí.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O longo caminho


Ele ainda se surpreende todos os dias. Afinal, não faz tanto tempo que aconteceu. Quanto tempo se passou? Oito, nove anos? O que importava... Ele já deixara de contar os dias há um bom tempo. Tudo de que ele se lembrava era de estar sempre sozinho.

A última vez que vira alguém com vida fazia muito tempo também, cerca de três anos atrás. Em uma de suas diárias explorações pelas ruínas ele encontrou um homem que dizia ter vindo do norte. Que já caminhava há muito tempo. Mas o homem estava debilitado pelo tempo na estrada e por sua avançada idade, e, poucos dias depois de ser encontrado, acabou morrendo. Mas mesmo sendo breve, foi bom conversar com alguém que não fosse seu reflexo.

Dentro de sua casa, ele observa todos os mantimentos com cuidado, para ter certeza que tem tudo de que precisa, e para saber o que está faltando para procurar na manhã seguinte. "Ainda tenho bastante água e enlatados. Os pães que fiz com as coisas que encontrei ainda estão bons. Vejamos... Sapatos ok. Roupas ok. Preciso de munição e combustível com mais urgência. Vou atrás disso amanhã." Ele se deita e dorme. Mas como sempre, acorda durante a noite com pesadelos do dia em que tudo começou. As pessoas ficando doentes de maneira inexplicável, e morrendo dias depois, sem sequer saber o que as afligia. Assim ele perdeu sua família e seus amigos. Mas, sem saber o motivo, o mesmo não aconteceu com ele. Ele então imaginava se havia mais alguém vivo, e então dormia de novo.

Na manhã seguinte, ao acordar, abriu uma lata de atum, pegou um pedaço de pão e comeu com um copo d'água. Se vestiu, pegou suas armas (embora quase sempre fossem desnecessárias, pois nunca encontrava nada em que atirar) e saiu. Sempre que via o sol daquela forma esquecia por um instante de como eram as coisas. A vegetação, que antes era quase inexistente na cidade, hoje cobria parte das estruturas. Parecia que a terra estava devorando todo o concreto. E, de certa forma, era bonito. Estava com vontade de comer carne, mas era raro encontrar algum animal grande. Mas as aves estavam por toda a parte.

Ele se dirigiu ao prédio que era um dos únicos que ele ainda não havia entrado em todo esse tempo. Dizia que iria lá só quando fosse extremamente necessário, mas como estava se mantendo bem havia tanto tempo, resolver ir até lá. Era um prédio enorme. Abrigava uma loja de departamentos que fora muito famosa quando o mundo ainda era cheio de vida. Achou logo na entrada um carrinho que ainda tinha as rodinhas e o levou com ele para carregar com o que encontrasse. Algumas roupas quentes para o inverno que chegaria em alguns meses. Mais alguns pares de sapatos novos. Sim, sapatos nunca são demais. A loja de armas estava praticamente limpa. Mas ele conseguiu encontrar algumas caixas de munição em um armário trancado. Durariam bastante se as coisas continuassem pacatas assim.

Ele encosta o carrinho e sobe a escadaria. Quando era garoto dizia que elas pareciam intermináveis, e agora continua a acreditar nisso. Ao chegar ao topo do prédio, pode ver a cidade toda, com várias áreas cobertas por grama e pequenas árvores. Conseguia ver o prédio que havia parcialmente desabado ao lado e se sustentava no prédio em que ele se encontrava. Os letreiros luminosos e outdoors que já foram uma grande atração da cidade estavam apagados, desbotados e despencando. Mas essa visão era o bastante para lembrá-lo de como foram as coisas um dia.

Ele volta para seu carrinho e se dirige para o subsolo do prédio. Carros enferrujados, destruídos pelo tempo em desuso. Ele estava prestes a ir embora, mas então resolveu andar mais pela garagem. Em um dos cantos havia um carro coberto por uma capa que um dia foi branca, mas estava amarela. Ele pega sua pistola e a deixa engatilhada caso haja alguma surpresa desagradável no carro. Mas ao tirar a capa, quase cai para trás. Um Ford Mustang GT500, bastante enferrujado, mas ainda assim, uma máquina e tanto. O interior por outro lado, estava impecável. Ele tenta ligar o carro, mas nem sinal de vida. Provavelmente seja a bateria e a falta de combustível. Ele então corre de volta à sua casa, e leva uma das várias baterias que usava para manter o rádio que usava para buscar sinais de vida. Levou também um galão do combustível que usava no gerador que provia a energi à casa.

O ronco do motor era surreal. Os pneus estavam baixos, mas nada comprometedor. Próximo ao prédio havia um posto e a bomba de ar ainda funcionava, pois ele a usara recentemente para testar um colchão que achara na rua. Carregou o porta malas com as coisas que havia levado no carrinho, e partiu para a rua. Não conseguia parar de rir e pensar que finalmente, depois de tanto tempo, voltaria a ter algum prazer naquela vida. Calibrou os pneus, encheu novamente o galão de combustível que havia levado e mais 2 que estavam no porta malas. Dirigiu pelas ruas da cidade que ainda estavam transitáveis se sentindo como se estivesse no mundo de antes.

Naquela noite, em sua casa, seu rádio captou uma transmissão. A qualidade era péssima. Mas conseguiu identificar as palavras "grupo" "sobreviventes" "recomeço" e "Los Angeles". Era um longo caminho a percorrer. E ele não sabia a intenção dessas pessoas. Mas já estava cansado de ficar só. Colocou os galões com combustível no carro, uma parte da comida e das roupas, e dirigiu.
Poderia estar enganado, mas era melhor arriscar do que ficar mais tempo sozinho esperando a sanidade o abandonar.

Mas até lá, a estrada seria sua companheira.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Pós-Apocalíptico #1


Ventava. Chovia. Fazia frio. O jovem havia acabado de acordar e não sabia o que havia acontecido. Ou não lembrava. Recordava apenas de um estrondo como o de um milhão de trovões. E o clarão como o de um milhão de relâmpagos. Depois disso, só silêncio e escuridão. Até agora. Até despertar. Ele olhava pelo grande buraco na parede do apartamento do 21º andar onde morava, e só o que via era o cinza. O cinza do céu. O cinza do concreto da cidade, em alguns pontos extremamente danificados. Provavelmente pelo estrondo e pelo clarão.
Após descer os lances de escada e alcançar a rua, ele olha novamente para o céu. Cinza. Com um casaco de couro que encontrou quando descia pelas escadas do prédio, tenta se proteger do frio e da chuva. Andava pelas ruas, a paisagem desolada, veículos abandonados, escombros de prédios caídos na calçada. O céu cinza. E após andar por algum tempo se deu conta de que estava sozinho. Não encontrara ninguém. Vivo ou morto. Ele via roupas no chão, carros de portas escancaradas. Mas não encontrava vestígios de seus donos. O silêncio seria mortal se não fosse pelo vento que cortava-lhe a pele e a chuva que caía. Fria e pesada. O jovem então entra em uma cafeteria. Pula por cima do balcão e calmamente procura por uma xícara. Encontra apenas uma inteira. Ele a limpa em sua camiseta, e a coloca sob a máquina de café. A máquina está coberta por poeira, mas não parece danificada. Ele descobre que ainda funciona. Enche a xícara de café, e o toma. Amargo. Mas quente. Encontra na dispensa dos fundos algo que parecia um pão. Olha. Cheira. Come. Não está ruim. Enche mais uma xícara de café quente, e senta-se numa mesa ao lado da grande janela de vidro e bebe e come e olha a rua. E o céu. Cinza. Na rua, apenas o vazio. Na cadeira ao lado da sua, um jornal. Na primeira página uma manchete sobre algum tipo de experimento que os militares estavam conduzindo. Coisa grande. Mas lhe parece muito complexo. Ao terminar o último gole do café, já morno, guarda o que restou do pão no bolso do casaco de couro, e sai. A chuva havia cessado. Ele tentava se lembrar de como era antes, mas estava difícil. Lembrava-se apenas das vozes, e das cores. Era diferente de agora. Agora era o silêncio e o cinza. De volta à rua, andava sem rumo. E por mais que caminhasse, parecia estar no mesmo lugar. Escombros. Lojas abandonadas. Algumas peças de roupas pelo chão. Veículos, muitos já cobertos por ferrugem. Após entrar em uma casa que, pelo menos aparentemente, estava intacta, sentiu que havia sido iluminado. Lembranças. Encontrara fotos na casa. De uma família, talvez. E lembrou-se da sua família. Do pai, de quem cresceu longe, por opção própria. Dos avós e da mãe, que o criaram. De alguns poucos amigos. Mas, mesmo tendo acordado a poucas horas e se deparado com a situação em que imaginava se encontrar o mundo todo, ela já tinha certeza que não os veria mais. Nem o pai ausente e os avós e a mãe e os poucos amigos. Tentava entender o que havia ocorrido. Sabia que ficando sozinho a sanidade o abandonaria. O abandonaria ainda mais rápido se tentasse entender o que ocorreu. E mais rápido ainda se descobrisse. Andou pela casa. Encontrou roupas quentes. As vestiu. Nada para comer na cozinha. Voltou para a rua pela porta da frente da casa. E ao olhar para trás, passou apenas a preocupar-se em sobreviver. Tirou o pedaço de pão que havia trazido da cafeteria do bolso do casaco de couro. Caminhava e comia. E olhava, como se esperasse uma resposta, para o céu. Cinza.