
Ele ainda se surpreende todos os dias. Afinal, não faz tanto tempo que aconteceu. Quanto tempo se passou? Oito, nove anos? O que importava... Ele já deixara de contar os dias há um bom tempo. Tudo de que ele se lembrava era de estar sempre sozinho.
A última vez que vira alguém com vida fazia muito tempo também, cerca de três anos atrás. Em uma de suas diárias explorações pelas ruínas ele encontrou um homem que dizia ter vindo do norte. Que já caminhava há muito tempo. Mas o homem estava debilitado pelo tempo na estrada e por sua avançada idade, e, poucos dias depois de ser encontrado, acabou morrendo. Mas mesmo sendo breve, foi bom conversar com alguém que não fosse seu reflexo.
Dentro de sua casa, ele observa todos os mantimentos com cuidado, para ter certeza que tem tudo de que precisa, e para saber o que está faltando para procurar na manhã seguinte. "Ainda tenho bastante água e enlatados. Os pães que fiz com as coisas que encontrei ainda estão bons. Vejamos... Sapatos ok. Roupas ok. Preciso de munição e combustível com mais urgência. Vou atrás disso amanhã." Ele se deita e dorme. Mas como sempre, acorda durante a noite com pesadelos do dia em que tudo começou. As pessoas ficando doentes de maneira inexplicável, e morrendo dias depois, sem sequer saber o que as afligia. Assim ele perdeu sua família e seus amigos. Mas, sem saber o motivo, o mesmo não aconteceu com ele. Ele então imaginava se havia mais alguém vivo, e então dormia de novo.
Na manhã seguinte, ao acordar, abriu uma lata de atum, pegou um pedaço de pão e comeu com um copo d'água. Se vestiu, pegou suas armas (embora quase sempre fossem desnecessárias, pois nunca encontrava nada em que atirar) e saiu. Sempre que via o sol daquela forma esquecia por um instante de como eram as coisas. A vegetação, que antes era quase inexistente na cidade, hoje cobria parte das estruturas. Parecia que a terra estava devorando todo o concreto. E, de certa forma, era bonito. Estava com vontade de comer carne, mas era raro encontrar algum animal grande. Mas as aves estavam por toda a parte.
Ele se dirigiu ao prédio que era um dos únicos que ele ainda não havia entrado em todo esse tempo. Dizia que iria lá só quando fosse extremamente necessário, mas como estava se mantendo bem havia tanto tempo, resolver ir até lá. Era um prédio enorme. Abrigava uma loja de departamentos que fora muito famosa quando o mundo ainda era cheio de vida. Achou logo na entrada um carrinho que ainda tinha as rodinhas e o levou com ele para carregar com o que encontrasse. Algumas roupas quentes para o inverno que chegaria em alguns meses. Mais alguns pares de sapatos novos. Sim, sapatos nunca são demais. A loja de armas estava praticamente limpa. Mas ele conseguiu encontrar algumas caixas de munição em um armário trancado. Durariam bastante se as coisas continuassem pacatas assim.
Ele encosta o carrinho e sobe a escadaria. Quando era garoto dizia que elas pareciam intermináveis, e agora continua a acreditar nisso. Ao chegar ao topo do prédio, pode ver a cidade toda, com várias áreas cobertas por grama e pequenas árvores. Conseguia ver o prédio que havia parcialmente desabado ao lado e se sustentava no prédio em que ele se encontrava. Os letreiros luminosos e outdoors que já foram uma grande atração da cidade estavam apagados, desbotados e despencando. Mas essa visão era o bastante para lembrá-lo de como foram as coisas um dia.
Ele volta para seu carrinho e se dirige para o subsolo do prédio. Carros enferrujados, destruídos pelo tempo em desuso. Ele estava prestes a ir embora, mas então resolveu andar mais pela garagem. Em um dos cantos havia um carro coberto por uma capa que um dia foi branca, mas estava amarela. Ele pega sua pistola e a deixa engatilhada caso haja alguma surpresa desagradável no carro. Mas ao tirar a capa, quase cai para trás. Um Ford Mustang GT500, bastante enferrujado, mas ainda assim, uma máquina e tanto. O interior por outro lado, estava impecável. Ele tenta ligar o carro, mas nem sinal de vida. Provavelmente seja a bateria e a falta de combustível. Ele então corre de volta à sua casa, e leva uma das várias baterias que usava para manter o rádio que usava para buscar sinais de vida. Levou também um galão do combustível que usava no gerador que provia a energi à casa.
O ronco do motor era surreal. Os pneus estavam baixos, mas nada comprometedor. Próximo ao prédio havia um posto e a bomba de ar ainda funcionava, pois ele a usara recentemente para testar um colchão que achara na rua. Carregou o porta malas com as coisas que havia levado no carrinho, e partiu para a rua. Não conseguia parar de rir e pensar que finalmente, depois de tanto tempo, voltaria a ter algum prazer naquela vida. Calibrou os pneus, encheu novamente o galão de combustível que havia levado e mais 2 que estavam no porta malas. Dirigiu pelas ruas da cidade que ainda estavam transitáveis se sentindo como se estivesse no mundo de antes.
Naquela noite, em sua casa, seu rádio captou uma transmissão. A qualidade era péssima. Mas conseguiu identificar as palavras "grupo" "sobreviventes" "recomeço" e "Los Angeles". Era um longo caminho a percorrer. E ele não sabia a intenção dessas pessoas. Mas já estava cansado de ficar só. Colocou os galões com combustível no carro, uma parte da comida e das roupas, e dirigiu.
Poderia estar enganado, mas era melhor arriscar do que ficar mais tempo sozinho esperando a sanidade o abandonar.
Mas até lá, a estrada seria sua companheira.
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