
"Mas que gritaria infernal é essa? Eu sabia que esses vizinhos novos iam encher o saco. Que horas... Não acredito! São 4:13 da manhã e esses infelizes tão fazendo essa zona?!" Esse foi o primeiro pensamento do homem ao ser acordado pelos ruídos dos vizinhos. Ele se levanta e vai em direção à janela. "Estranho... Eles se mudaram faz pouco mais de 2 semanas, e pela quantidade de coisas que tão colocando nos carros, parece que tão de mudança de novo. E com certeza tão com pressa. Que se danem, e que não voltem mais."
"Já que me acordaram, vou comer alguma coisa antes de voltar pra cama." A escolha foi a pizza fria que havia pedido no final da noite. Um copo generoso de Coca-Cola gelada. "Tem coisa melhor que isso?" Ele se acomoda no sofá. Liga a TV, e logo toma um susto. Aparentemente, alguma coisa muito errada estava acontecendo na cidade. Ele passou por alguns canais, e viu que todos mostravam a mesma coisa. "Que diabos é isso? Por que tão atirando nos civis? Será que era algum tipo de protesto que... Puta que pariu! Essas pessoas tão comendo aqueles corpos! Que diabos é isso?" As imagens eram claras. Militares disparando contra homens e mulheres que pareciam possuídos, que avançavam sobre as pessoas e as devoravam como animais selvagens. E esses que eram devorados se levantavam e acompanhavam os outros no caos.
Em nenhum dos canais havia alguma explicação. Apenas instruções para que todos os habitantes da cidade evitassem o centro, as vias principais, e que, se não pudessem se dirigir à uma base militar que ficava algumas centenas de Km ao norte da cidade, se trancassem em casa, armados, e atirassem em quem tentasse invadir. Diziam que enviariam equipes para buscar esses que ficaram pra trás. "Até parece que eu vou ficar aqui sozinho, por sabe-se lá quanto tempo, esperando que esses caras lembrem de mim e venham me buscar. Tenho que sair daqui agora!". O homem corre até o quarto, e tira sua USP45 da caixa em que estava debaixo da cama. "Quinze balas no pente, uma na agulha, e mais um pente cheio. Deve ser o bastante. Chaves, chaves... Estão no contato."
Do lado de fora ele percebe que não eram apenas os vizinhos problemáticos que estavam indo embora. Todos os outros estava fazendo a mesma coisa. Enchendo carros com seus pertences e, provavelmente, partindo para a tal base militar. Mas por morar no lado sul da cidade, seria preciso passar pela região central que disseram para evitar. "Acho que essas roupas devem dar pra uns dias. Imagino que essa 'mudança' não dure muito." O rugido furioso de sua R1 é abafado pelos gritos. "Merda! Aquelas coisas chegaram aqui!" E enquanto chegavam, devoravam todos que conseguiam pegar. Devoram pele, carne, entranhas. "Isso só pode ser um pesadelo!" A moto arranca, e em poucos segundos é como se voasse, tamanha a velocidade.
"Melhor eu ir mais devagar aqui. Tô muito perto da área que disseram pra evitar. Se for com calma, saio daqui inteiro." Ele avança lentamente pelas ruas agora desertas. "E pensar que ontem de noite esse lugar era intransitável..." Apenas algumas quadras o separavam da avenida principal da cidade. De lá seria fácil chegar até a rodovia, e então, à base militar. Em uma das ruas, ele avista vários corpos. "Parece que os militares já passaram por aqui." O olhar é atento em todas as direções. Quando está prestes a alcançar um cruzamento, um caminhão, com cerca de 15 pessoas na parte de trás passar por ele em alta velocidade. "Malditos, não olham por onde andam nunca... Oh, não! Oh não, oh não!"
Quantos deviam ser? 80? 100? Um bando enorme dos comedores de gente corriam, insanos, atrás do caminhão. "Merda, me viram, me viram!" Ele dá meia volta e acelera. Pelo retrovisor, ele os vê ficando pra trás. Mas eles não desistem. "Merda, merda, merda! Pra onde eu vou? Posso tentar chegar ao outro lado pelo parque..." As lembranças de quando era garoto explodem em sua cabeça. Se lembrava das inúmeras vezes que veio até o parque com a família e os amigos. Já fazia tempo. Ele segue cautelosamente, tentando fazer o mínimo possível de barulho, prestando atenção em tudo a sua volta. "Não foi uma ideia muito brilhante vir por aqui. Esses malditos podem vir de qualquer lado." Chegar até o portão do outro lado do parque foi fácil. Quando estava a poucos metros da rua, um dos 'famintos' surge em sua frente. Instintivamente, ele atira. Entre os olhos. O corpo cai ao chão. "Acho que seus amigos não gostam de mim!" Centenas deles surgem do meio das árvores, provavelmente atraídos pelo som do disparo.
"Dezesseis a menos!" Ele recarrega a arma e acelera pelo portão. Ao longe já podia avistar a ponte que ligava a principal avenida da cidade à rodovia que ia para o norte. Sempre achou um desperdício gastarem tanto dinheiro em uma ponte tão grande e bonita, sendo que só precisavam fazer um acesso decente. Mas nunca tinha ficado tão feliz em ver a ponte a poucos Km de distância. A cerca de 600 metros da ponte, o segundo grande choque do dia. Um helicóptero militar dispara 4 mísseis contra a ponte. "Já devia imaginar uma coisa dessas. Esses desgraçados não querem que nada saia da cidade. Típico." Depois de ver a ponte ser reduzida a escombros, ele olha ao redor. Eles estão vindo de todas as direções. E só um lugar dentro da cidade parece ser forte o bastante para abrigá-lo até que isso acabe. Se é que vai acabar.
A velha catedral. Nunca pensou que depois de tantos anos, voltaria a entrar lá por vontade própria. A moto não poderia subir pela longa escadaria. "Eu volto pra te buscar, prometo!" Ele corre com todas as suas forças. Eles estão chegando mais e mais perto. O alívio é imenso quando as portas se fecham à sua frente. Com a arma em punho, ele olha ao redor. A igreja é imensa. Se lembra que vinha sempre obrigado por alguém, e que morria de tédio. Sua única distração era olhar para o alto, e ver a luz do sol entrar pela abóboda. "Tem alguém aqui? Se tiver, por favor, apareça." De trás de uma das grandes colunas, surgem uma mulher com roupas brancas, talvez médica ou enfermeira e um homem de idade, que devia ser o padre. "Fiquem calmos, sou policial." Ele guarda a arma. "Tem mais alguem aqui dentro?". O padre aponta para a porta da sacristia. Enquanto caminha até a porta, a mulher diz que eles acolheram alguns feridos que não estavam em estado grave, e os colocaram lá para descansarem até o socorro chegar. "O socorro não vai chegar. Os militares acabaram de explodir a ponte que liga a cidade à rodovia. Não querem que nada saia. E com certeza não entrarão." Ele pode ver a esperança abandonar os dois. Devia ter mentido.
Ele se senta em um banco, ao lado da mulher. Diz que provavelmente os militares voltem para verificar o estado da cidade, mas pode ser que leve alguns dias. Não será rápido. Ela chora. O padre caminha até o altar, começa um sermão, mas é interrompido. Um grito agonizante. Algum dos feridos com muita dor, provavelmente. A mulher corre até a porta. O padre chega ao mesmo tempo. "Corram!" O homem só tem tempo de gritar. Os feridos devem ter sido infectados. Todos com aquela aparencia, como se sua humanidade os tivesse abandonado. O padre cai. Tarde demais para salvá-lo. A mulher corre em sua direção enquanto ele atira. "Desgraçados, morram!" A mulher tropeça. Ele tenta chegar até a porta que leva às torres da catedral. Ele abate mais um. Outro. Mais outro. E outro. "Devia ter trazido mais munição..." Um deles consegue o derrubar. Os outros logo o cercam. Ele olha para o alto e vê a abóboda. A luz do sol enche o salão. Hoje deveria ser seu dia de folga. "O dia hoje tá realmente bonito. Mas confesso que preferia uma companhia mais bonita e agradável." "Que bela maneira de terminar o dia", ele pensa. A dor é lacerante.
